Os economistas preferem o verbo crescer; os poetas, florescer. Os políticos escolheram os economistas, e por décadas tiveram sucesso.
Nossas cidades cresceram em população, número de prédios, shoppings, viadutos, mas também em criminalidade, miséria, crianças nas ruas e prostituição infantil. As cidades cresceram, mas não floresceram.
Nossa indústria cresceu e nos transformou em potência econômica, encheu ruas de automóveis e lojas de produtos made in Brazil, construiu hidrelétricas, centrais nucleares, aeroportos e rodovias. Mas por décadas enfrentamos uma inflação galopante e a troca regular da moeda, tornamo-nos campeões de endividamento, concentração da renda e desmatamento. O desemprego se mantém, a taxa de juros a mais alta do mundo, 70% da população continua pobre. A indústria cresceu, mas não floresceu.
A agricultura cresceu, tornou-nos o segundo maior exportador de alimentos, e o nosso agronegócio um exemplo de eficiência. Mas florestas foram devastadas, populações deslocadas, sem-terra peregrinam pelo território nacional. A agricultura cresceu, mas não floresceu.
O número de crianças matriculadas na escola cresceu, mas muitas não o frequentam as aulas, não concluem o nsino médio, não aprendem o que precisam. A educação cresceu, mas não floresceu.
Nossos políticos precisam buscar, mais do que crescimento, formas de fazer o Brasil florescer ? crescer de forma sustentada, livre das dívidas, das depredações da desigualdade, da inflação, da taxa de juros.
O caminho ? o crescimento pela base, beneficiando a população de baixa renda, e não o crescimento pelo topo, esperando uma distribuição da renda que nunca vir?. Um crescimento que respeite o equilíbrio fiscal e mantenha a estabilidade de preços; que respeite o meio ambiente; que seja capaz de frear a trag?dia do endividamento e de reduzir a taxa de juros. Esses objetivos ? crescimento pela base e finanças públicas equilibradas podem se unir. Bem administrados, definidos corretamente e mobilizando a população em torno deles, poder?o fazer o Brasil crescer florescendo, atendendo as necessidades dos exclu?dos, com estabilidade de preços, respeito ecológico e sem a depend?ncia das d?vidas e seus juros.
Na atual situa??o brasileira, n?o h? estrat?gia melhor do que o crescimento pela base, com incentivos sociais que empreguem os pobres, sem paternalismo nem assistencialismo, para que eles produzam tudo de que precisam, assegurem a frequ?ncia de seus filhos ? escola, trabalhem na constru??o de sistemas de ?gua e esgoto, em projetos de reflorestamento. Um grande programa de emprego socialmente produtivo. Esses gastos p?blicos, al?m de produzirem aquilo de que o povo precisa, dinamizariam a economia, induzindo crescimento. Elevariam a produtividade e liberariam recursos p?blicos hoje gastos em assist?ncia social. Gastos com sa?de e seguran?a diminuiriam; a redu??o da repet?ncia escolar diminuiria despesas com educa??o; ?gua e esgoto reduziriam doen?as e aumentariam a produtividade.
Isso ? tecnicamente poss?vel, mas exigir? a composi??o de uma base de apoio pol?tico, para que o Brasil deixe o imediatismo e o corporativismo que regem suas decis?es e formule alternativas para o conjunto do Pa?s, no m?dio e longo prazo. Esse ? um problema pol?tico, dos pol?ticos; e n?o t?cnico, dos economistas. Os economistas, que haviam aprisionado os pol?ticos, s?o agora prisioneiros deles. E estes n?o veem sa?da; continuam prisioneiros do verbo crescer, ignorando e desprezando o conceito de florescer.
Artigo publicado na revista Profiss?o Mestre de outubro de 2009
Professor r da Universidade de Brasília e senador pelo PDT/DF. Site: http://www.cristovam.com.br/.



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