• A Escola da Ponte tem a ver com a história pessoal de José Pacheco
Pacheco nasceu e cresceu naquele Portugal do ditador Salazar – repressão, censura, exclusão, fome, violência. Imagina a vida daqueles nascidos nas favelas como ele? José morava num bairro extremamente pobre da região do Porto. Quase todos seus amigos de infância se perderam – uns foram mortos, outros não deram em nada. A vida era dura.
• Por que ele não se perdeu
Porque, ao contrário dos demais, encontrou gente maravilhosa no seu caminho. Pessoas que o levaram a repensar a própria cultura – da violência e da pobreza.
Ele diz que quatro pessoas foram fundamentais em sua vida. Três delas viviam fora da favela. Pessoas que o ensinaram coisas como: o valor de uma música erudita. Privilégio de poucos.
• Diferencial do José Pacheco
Absorveu o que as pessoas que se aproximaram dele tinham a oferecer. Essa compreensão primeiramente foi por intuição. Os livros vieram depois. Ele não apenas ouviu, escutou o que as pessoas tinham a dizer.
“Infelizmente [ou felizmente], tanto quem nasce numa favela quanto quem nasce num condomínio não se dá conta do mundo em que vive”.
• Trabalho
Começou pelas oficinas de construção de vassouras – um dos trabalhos mais duros que teve. A forma de se fazer vassoura era extremamente desgastante, ainda mais para uma criança de apenas quatro anos de idade como ele.
Foi eletricista, agente de seguro, líder comunitário, engenheiro, Prefeito, jornalista [função que desempenha até hoje] e outras.
• Voluntariado e resistência à ditadura
Ainda jovem, foi para a áfrica trabalhar como voluntário – com frades, em missões. Os frades propuseram que ele desse aulas para crianças – na época, ele ainda não era professor. Aliás, nem gostava da idéia [olha que ironia!!]. Virou a paixão da vida dele.
• Por que ir para a áfrica
Tem a ver com resistência. Era na áfrica que estavam os movimentos que combatiam a ditadura. Ele fazia parte de um dos núcleos de escravos. Ia [clandestinamente] para conspirar. Na época, ele era estudante e trabalhador.
Foi e voltou à áfrica, várias vezes, inclusive depois que se tornou professor [do ensino fundamental].
Quando estava de volta a Portugal [digamos definitivamente] – a polícia política o apanhou. Pacheco foi denunciado por outro professor. Mais uma ironia na vida dele.
Foi forçado a ir para as tropas do exército [72 a 74]. Em 74 a revolução aconteceu. Muitos amigos morreram, outros suicidaram. José Pacheco conquistou a liberdade e voltou às atividades educacionais.
• Por que virou educador
Viramos educador por amor ou por vingança, diz o professor. Ele se vingou, não no sentido de promover a maldade e sim no sentido de vingar-se da exclusão e da opressão.
• Três pessoas que o marcaram profundamente, principalmente como educador
- Um padre – porque o ensinou a perguntar. A primeira coisa que esse padre disse ao entrar na sala, no primeiro dia de aula: “O que quereis saber?”. Ele jamais esqueceu o valor dessa frase.
- Um poeta – Pedro Homem de Melo – este o ensinou a ver beleza na arte de educar – na aula dele [aula de literatura] lia-se e escrevia-se poesia, falava-se da beleza da palavra, da beleza da vida e muito mais.
- Uma professora de francês – o ensinou que a arte de educar é antropofágica. O ato de educar é de um para um. Os alunos absorvem o que somos e não o que dizemos.
• A Escola da Ponte
Quando saiu do exército, voltou ao trabalho nas escolas. Dava aula de 1ª a 4ª série. Sempre trabalhando no interior, em escolas paupérrimas.
O bom, segundo o professor Pacheco, é que professor novo anda saltitando de escola em escola, cheio de energia, cheio de sonhos.
Ele passou num concurso para professores e foi para uma região chamada “Vila das aves” – conhecida por “Aves” - onde fica a “Escola da Ponte”.
Quando viu a palavra "ponte", ficou impressionado. Tinha centenas de escolas para escolher, mas escolheu justamente a Escola da Ponte pela força da palavra. Ali era o seu lugar.
A escola era muito pobre – alunos sujos, descalços, bêbados, na prostituição infantil. A escola não tinha nem banheiro.
Quem comandava a cidade de Vila das Aves eram coronéis. Pessoas que não se importavam nem com a cidade nem com a escola. Perseguiam alunos, matavam animais que tinham na escola, dentre outras atrocidades.
Ele, outros dois professores e líderes locais uniram forças – fizeram uma aliança para salvar a escola e a região. A única maneira de fazer isso era tornando-se um político.
Pacheco candidatou-se e foi eleito Prefeito, aos 26 anos [um capítulo à parte].
A Vila das Alves e a Escola da Ponte recomeçavam suas histórias.
• O que diferencia a Escola da Ponte das demais escolas
Não tem turma, não tem série, não tem diretor, não segue o padrão convencional.
Mas isso não é o mais importante para José Pacheco. O mais importante é a transformação do que ela era para o que ela é. Ela acolhe os alunos que as outras jogam fora. Na ponte aprende-se a “ser”. Os alunos da Ponte são mais felizes. Vivem a música, a poesia, a liberdade. Os alunos que sabem, ensinam os que não sabem. Alterou-se a cultura da escola. Na "Ponte" ninguém está sozinho. Educam na cidadania e não para a cidadania. Inaugurou-se um novo tempo.
Rubem Alves visitou a escola e ficou “im...pre...ssio...nado”.
• Deixar a escola da Ponte. Mudar para o Brasil
O projeto da escola da Ponte – uma escola com as características descritas na introdução - ganhou autonomia. José Pacheco era o mais velho da escola. Estava na hora de deixar os mais jovens dar continuidade ao trabalho. "Uma árvore não cresce à sombra de outra árvore".
Detalhe: Trinta e dois anos atrás ninguém acreditava nele porque era muito jovem. Hoje tudo que ele diz encaram como verdade absoluta. Isso não é bom. Então é hora de mudar, deixar o lugar para os mais novos - reconhece o professor.
• Viver em Minas Gerais
Ele escolheu Minas por afetividade. E cita Fernando Pessoa:
“Pensar é estar doente dos sentidos”.
A vida só existe na paixão, nos sentimentos. Isso explica porque o professor decidiu morar nas terras de Drumond, Guimarães Rosa, Adélia Prado e tantos outros [que bom que é minha terra também].
Pacheco lançou no dia 26 de maio, em Belo Horizonte, o livro “Pequeno dicionário das utopias da educação” e, no dia 28, em Porto Alegre, o livro: “Pequeno dicionário dos absurdos da educação”.
• Por que lançar dois livros, com títulos parecidos, em estados diferentes
Em função das diferentes realidades: Minas é o lugar das utopias e o Sul é o lugar dos absurdos - explica o professor.
• Os maiores educadores que ele conheceu
Para minha felicidade ele cita dois mineiros [infelizmente, desconhecidos de muitos]:
Eurípedes Barsanulfo
Tomás Novelino – aluno de Eurípedes
• Para terminar, já que falamos em Minas [um estado bastante relacionado à religiosidade] segue o comentário do professor a respeito do tema:
“Sou profundamente religioso. Acredito em todas as religiões. Não sou nada e sou tudo. E assim como Simone de Beauvoir : Tenho fé naqueles que tem fé”.
Fonte: Renata Zampetti / por Cláudio Henrique Vieira - jornalista - produtor programa Brasil das Gerais - blog Coisas utéis e inúteis da vida
A entrevista aconteceu porque tive a felicidade de produzir um programa sobre educação. Discutimos um modelo baseado na famosa “Escola da Ponte” - que fica em Portugal - e da qual José Pacheco fez parte por 32 anos. Aliás, não apenas fez parte, foi o grande responsável pelas mudanças de rumo e de paradigmas. Ela se tornou modelo internacional, graças às idéias e ao trabalho do professor
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