Contos da Sexta-feira da paixão
Joandre Oliveira Melo
Mesmo alheio às comemorações da paixão de Jesus Cristo, estes dias destilam cheiros de sofrimentos pelo ar de Pará de Minas. Resgatam sentimentos de dor, reflexão e penitência. Os dias que antecedem a sexta-feira da paixão sempre me afligiram, desde pequeno. Uma amargura paira no ar.
Já tivemos, é claro, épocas mais fervorosas anos atrás. Lembro-me com ternura e saudade das procissões, ladainhas rezadas pelos fervorosos cristãos, que somavam a maioria. Naquela época, os mais velhos dirigiam as manifestações religiosas.
Dentre tantas recordações restaram-me a dos contos das sextas-feiras da paixão. Contavam-nos, os mais velhos, que a sexta-feira da paixão é um dia temeroso entre os católicos de Pará de Minas. É um dia de luto, e luto se cumpre com respeito, silêncio e orações. Mas, nesta época, segundo os antigos da região, o mau espreita-nos.
Contar-lhes-ei algumas estórias; uma delas, inclusive, aconteceu comigo. Comecemos pela mais antiga.
Contava um tio meu, já falecido há anos, que em sua tenra idade ouvira seu avô contar o caso de Generoso.
Generoso era homem rude, destemido, forjado pela têmpera do sertanejo. Na lida com o gado, não havia ninguém igual. Enfrentava o Navio, um temido touro reprodutor da fazenda. Seu nome -- Navio --, vinha do som grave e potente do seu mugir. Parecia o rugir dos navios a vapor a moverem-se pelo cais. Só a cabeçorra do animal já era o bastante para um homem conseguir carregar. Generoso, ao contrário dos outros peões, tombava o impetuoso touro com facilidade, para o deleite da moças da fazenda.
Generoso era também um homem nervoso, temperamental. Gabava-se de ter furado o "bucho" de quatro caboclos que certa vez afrontraram-no para roubar-lhe a algibeira. Contava ainda a vez que precisou bater em dois guardas, armados, que o queriam deter por causa de uma pequena arruaça, lá pelas bandas de Pernambuco. Generoso não podia deixar-lhes sem uma lição.
Pois bem, dizia meu tio, Generoso, homem que já contara com seus quarenta anos, corpulento, destemido, ria-se das estórias que o vovô contava para os peões da fazenda em épocas da quaresma e da sexta-feira da paixão, quando tudo parava para honrarem o morto. O vovô ditava-lhes como deveria ser o comportamento nas sextas-feiras da paixão. Generoso ria e ainda se gabava dizendo que se o coisa ruim aparecesse, ele o sapecava com o chumbo de uma pistola antiga da qual Generoso não desgrudava. Mas, o vovô o advertia: -- Home com essas coisa num se brinca.
Mas, Generoso parecia não conhecer o medo e nada que lhe dissessem causava-lhe temor. Depois de ouvir algumas estórias, Generoso levantou-se, despediu de todos e foi para o seu ranchinho afastado da casa grande. Pelo caminho, revivia as estórias do meu avô em sua mente. Ora, retrucava Generoso, quem diria do seu Athayde, fazendeiro, estudado -- tinha até estudado na escola de Dona Maricas, professora primária do arraial --, acreditar naquelas estórias; era um despropósito.
Chegou até o seu ranchinho, o sol já deitava seus raios por detrás da serra do Dr. Otto, fazendeiro, vizinho de meu avô. Sentou-se no jirau ao lado da porta de entrada do seu ranchinho e pôs-se a picar um pedaço de fumo que ele mesmo havia colhido, trançado e curtido. Pretendia enrolar alguns cigarros com palha que cuidadosamente havia cortado com seu canivete.
Enquanto preparava seus cigarros, viu caminhando em sua direção um grande cachorro, negro como carvão, mas, tão estropiado que causava dó. Generoso encheu-se de pena do cachorro, que veio deitar-se aos seus pés, que adentrou o ranchinho e trouxe um pedaço de carne seca defumada e salgada que cozia com um pouco de feijão para suas refeições. Cortou um naco da carne e apresentou-a ao cachorro que logo agarrou todo o pedaço e, assim, fazia com tudo que punha-lhe próximo à boca; abocanhava com voracidade. em um de seus movimentos cortou, com os dentes, a mão de Generoso. O sangue logo brotou; Generoso, homem "brabo", encheu-se de ódio e em um movimento repentino levantou-se e chutou o cachorro que absorveu bem o impacto e nem se mexeu. Generoso, irado, repetiu o chute, agora com mais força e nada do "tição" se mover. Generoso, então, perdeu as estribeiras, chutou o cão com toda força que tinha nas pernas e gritou: -- Sai daqui tição! Mais uma vez o cão nem se mexeu, porém, ele fitou Generoso e com uma voz rouca e aterradora rosnou: -- Num saio não. E ali permaneceu.
Generoso, homem destemido, apavorou-se e sem pensar atirou-se em uma carreira desenfreada pela estrada até desaparecer no grotão. Ninguém teve notícias de Generoso até que dois dias depois; segundo o meu tio, fora encontrado no grotão, de quatro bebendo água como um cão. Aos poucos se recuperara e contou ao meu avô tudo que acontecera-lhe na tarde da sexta-feira da paixão, após ter deixado a casa grande.
Do cão negro nada se sabe, pois, nenhum dos fazendeiros vizinhos tinha animal daquela pelagem.
Ouvi a estória atentamente, no entanto, eu era garoto da cidade, e já sabia até o que era superstição, fazia contas que meu tio nem as compreendia. Já podia usufruir da luz elétrica e até da TV preto e branco de vávulas que meu pai comprara de segunda mão. Eu, menino da cidade, é que não temeria tal conto! -- Isto é superstição tio, o vovô contou-lhe esta estória como parte de um imaginário popular do qual ele era fruto.
Meu tio admirou-se do que eu disse: -- "Imaginário popular", mas, que diabos é isto?
Enquanto meu tio matutava eu peguei a minha bola e comecei a brincar. Chutava a bola contra a parede do barracão de ferramentas, os chutes ficaram mais rápidos e fortes e eu treinava minha pontaria com a bola. Neste momento, fui advertido pelo meu tio sobre ser sexta-feira da paixão e que não era dia para peraltices. -- Ora que bobagem tio. Mas, ele retrucou: -- Vá guardar esta bola menino e ficar quieto, hoje não é dia dessas coisas.
--Não! disse firmemente, vou jogar mais um pouquinho, quero trinar a minha pontaria no chute a gol. Mas, ao primeiro chute, após a advertência do meu tio, a bola desviou e atingiu a lâmpada junto à beira do telhado. Ouvimos uma explosão e uma labareda de fogo desceu até o chão.
Passado o susto, verificamos que a lâmpada estava apagada, porque havia queimado o filamento na semana anterior.
Este caso eu não sei explicar, mas, se alguém quiser se aventurar o espaço está aberto...
Joandre Oliveira Melo
Mesmo alheio às comemorações da paixão de Jesus Cristo, estes dias destilam cheiros de sofrimentos pelo ar de Pará de Minas. Resgatam sentimentos de dor, reflexão e penitência. Os dias que antecedem a sexta-feira da paixão sempre me afligiram, desde pequeno. Uma amargura paira no ar.
Já tivemos, é claro, épocas mais fervorosas anos atrás. Lembro-me com ternura e saudade das procissões, ladainhas rezadas pelos fervorosos cristãos, que somavam a maioria. Naquela época, os mais velhos dirigiam as manifestações religiosas.
Dentre tantas recordações restaram-me a dos contos das sextas-feiras da paixão. Contavam-nos, os mais velhos, que a sexta-feira da paixão é um dia temeroso entre os católicos de Pará de Minas. É um dia de luto, e luto se cumpre com respeito, silêncio e orações. Mas, nesta época, segundo os antigos da região, o mau espreita-nos.
Contar-lhes-ei algumas estórias; uma delas, inclusive, aconteceu comigo. Comecemos pela mais antiga.
Contava um tio meu, já falecido há anos, que em sua tenra idade ouvira seu avô contar o caso de Generoso.
Generoso era homem rude, destemido, forjado pela têmpera do sertanejo. Na lida com o gado, não havia ninguém igual. Enfrentava o Navio, um temido touro reprodutor da fazenda. Seu nome -- Navio --, vinha do som grave e potente do seu mugir. Parecia o rugir dos navios a vapor a moverem-se pelo cais. Só a cabeçorra do animal já era o bastante para um homem conseguir carregar. Generoso, ao contrário dos outros peões, tombava o impetuoso touro com facilidade, para o deleite da moças da fazenda.
Generoso era também um homem nervoso, temperamental. Gabava-se de ter furado o "bucho" de quatro caboclos que certa vez afrontraram-no para roubar-lhe a algibeira. Contava ainda a vez que precisou bater em dois guardas, armados, que o queriam deter por causa de uma pequena arruaça, lá pelas bandas de Pernambuco. Generoso não podia deixar-lhes sem uma lição.
Pois bem, dizia meu tio, Generoso, homem que já contara com seus quarenta anos, corpulento, destemido, ria-se das estórias que o vovô contava para os peões da fazenda em épocas da quaresma e da sexta-feira da paixão, quando tudo parava para honrarem o morto. O vovô ditava-lhes como deveria ser o comportamento nas sextas-feiras da paixão. Generoso ria e ainda se gabava dizendo que se o coisa ruim aparecesse, ele o sapecava com o chumbo de uma pistola antiga da qual Generoso não desgrudava. Mas, o vovô o advertia: -- Home com essas coisa num se brinca.
Mas, Generoso parecia não conhecer o medo e nada que lhe dissessem causava-lhe temor. Depois de ouvir algumas estórias, Generoso levantou-se, despediu de todos e foi para o seu ranchinho afastado da casa grande. Pelo caminho, revivia as estórias do meu avô em sua mente. Ora, retrucava Generoso, quem diria do seu Athayde, fazendeiro, estudado -- tinha até estudado na escola de Dona Maricas, professora primária do arraial --, acreditar naquelas estórias; era um despropósito.
Chegou até o seu ranchinho, o sol já deitava seus raios por detrás da serra do Dr. Otto, fazendeiro, vizinho de meu avô. Sentou-se no jirau ao lado da porta de entrada do seu ranchinho e pôs-se a picar um pedaço de fumo que ele mesmo havia colhido, trançado e curtido. Pretendia enrolar alguns cigarros com palha que cuidadosamente havia cortado com seu canivete.
Enquanto preparava seus cigarros, viu caminhando em sua direção um grande cachorro, negro como carvão, mas, tão estropiado que causava dó. Generoso encheu-se de pena do cachorro, que veio deitar-se aos seus pés, que adentrou o ranchinho e trouxe um pedaço de carne seca defumada e salgada que cozia com um pouco de feijão para suas refeições. Cortou um naco da carne e apresentou-a ao cachorro que logo agarrou todo o pedaço e, assim, fazia com tudo que punha-lhe próximo à boca; abocanhava com voracidade. em um de seus movimentos cortou, com os dentes, a mão de Generoso. O sangue logo brotou; Generoso, homem "brabo", encheu-se de ódio e em um movimento repentino levantou-se e chutou o cachorro que absorveu bem o impacto e nem se mexeu. Generoso, irado, repetiu o chute, agora com mais força e nada do "tição" se mover. Generoso, então, perdeu as estribeiras, chutou o cão com toda força que tinha nas pernas e gritou: -- Sai daqui tição! Mais uma vez o cão nem se mexeu, porém, ele fitou Generoso e com uma voz rouca e aterradora rosnou: -- Num saio não. E ali permaneceu.
Generoso, homem destemido, apavorou-se e sem pensar atirou-se em uma carreira desenfreada pela estrada até desaparecer no grotão. Ninguém teve notícias de Generoso até que dois dias depois; segundo o meu tio, fora encontrado no grotão, de quatro bebendo água como um cão. Aos poucos se recuperara e contou ao meu avô tudo que acontecera-lhe na tarde da sexta-feira da paixão, após ter deixado a casa grande.
Do cão negro nada se sabe, pois, nenhum dos fazendeiros vizinhos tinha animal daquela pelagem.
Ouvi a estória atentamente, no entanto, eu era garoto da cidade, e já sabia até o que era superstição, fazia contas que meu tio nem as compreendia. Já podia usufruir da luz elétrica e até da TV preto e branco de vávulas que meu pai comprara de segunda mão. Eu, menino da cidade, é que não temeria tal conto! -- Isto é superstição tio, o vovô contou-lhe esta estória como parte de um imaginário popular do qual ele era fruto.
Meu tio admirou-se do que eu disse: -- "Imaginário popular", mas, que diabos é isto?
Enquanto meu tio matutava eu peguei a minha bola e comecei a brincar. Chutava a bola contra a parede do barracão de ferramentas, os chutes ficaram mais rápidos e fortes e eu treinava minha pontaria com a bola. Neste momento, fui advertido pelo meu tio sobre ser sexta-feira da paixão e que não era dia para peraltices. -- Ora que bobagem tio. Mas, ele retrucou: -- Vá guardar esta bola menino e ficar quieto, hoje não é dia dessas coisas.
--Não! disse firmemente, vou jogar mais um pouquinho, quero trinar a minha pontaria no chute a gol. Mas, ao primeiro chute, após a advertência do meu tio, a bola desviou e atingiu a lâmpada junto à beira do telhado. Ouvimos uma explosão e uma labareda de fogo desceu até o chão.
Passado o susto, verificamos que a lâmpada estava apagada, porque havia queimado o filamento na semana anterior.
Este caso eu não sei explicar, mas, se alguém quiser se aventurar o espaço está aberto...



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