A DIFERENÇA ENTRE AMOR, GOSTAR E PAIXÃO
Gostaria de iniciar este texto com o poema de Camões, muito difundido e por quase todos conhecidos: Amor é um fogo que arde sem se ver; /É ferida que dói e não se sente; /É um contentamento descontente; /É dor que desatina sem doer. / É um não querer mais que bem-querer; /É um andar solitário entre a gente; / É nunca contentar-se de contente; /É um cuidar que ganha em se perder. /É querer estar preso por vontade; /É servir a quem vence, o vencedor; /É ter com quem nos mata, lealdade. /Mas como causar pode seu favor/ Nos corações humanos amizade, /Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Prontos! Ai está! Mas, o que Camões poetiza, é amar, gostar ou paixão? Bem, esta tarefa deixarei para o caro leitor decidir depois de ter consumido o texto que lhes preparei.
O nosso estado de evolução inviabiliza gozar do amor sublime e pleno. Consequentemente está claro que também as palavras serão mal conduzidas devido a essa mesma falta de discernimento espiritual. Faz-se necessário usar adequadamente certas palavras que são mal utilizadas em um relacionamento. São elas: gostar, amar e paixão.
Amor
Sentimento que nos impele para o objecto dos nossos desejos. Quer dizer, o “amor é um conflito entre os nossos reflexos e as nossas reflexões”. Para além de se multiplicar quando se divide, o amor é despertar aquele a quem amamos para toda a grandeza de que são capazes. Filosoficamente falando, seria a promoção do outro em toda a sua plenitude de modo incondicional. “O amor é aquilo que os anjos chamam de alegria celeste, os demónios o chamam de sofrimento infernal e os homens o chamam de amor”. Só existe amor quando não existe autoridade.
Algumas características de quem ama
i. Sabe que o amor não se encontra no primeiro olhar: o amor à primeira vista é uma oportunidade rara entre duas pessoas, que se encontram em mesma sintonia espiritual, chamados de espíritos afins. O amor verdadeiro só entra em campo a cada dia de alquimia produzida a partir desse encontro.
ii. Dá amor sem sentir a perda deste sentimento: para amar, é preciso “ser amor”, assim, nunca sentiremos falta do que se dá. O que se “é” não se perde, se transmite, causando alívio e alegria para quem dá e preenchimento para quem recebe.
iii. No silêncio sabe doar e nas tribulações jamais pensa em receber: o amor não quer honras nem medalhas por seus feitos, antes a recusa, pois não teria onde guardar. Amor não é investimento que se possa fazer em uma pessoa.
iv. Vê o sexo como complemento do amor.
v. Amou primeiro a si mesmo: pois só ama quem é amor. Como se poderá amar alguém, se não somos primeiro portadores e transmissores desse sentimento?
vi. Ama o ser como um todo e não parte dele.vii. Ama acima de tudo a felicidade do parceiro, mesmo que esta felicidade seja ao lado de outro(a).
viii. Ama sem ser amado. Ama sem pedir amor: o amor genuíno não se importa em ter respostas, devolução ou retenção de um sentimento que dele aflora naturalmente.
ix. Despreza seu medo de dizer “eu te amo”: na verdade, sentimento não deveria ser falado, seria melhor senti-lo. Infelizmente se faz necessário reproduzi-lo falta de sensibilidade espiritual.
x. Ama em liberdade e não o aprisiona.
como podemos ver, amar é admirar com o coração. Admirar é amar com o cérebro. O amor é um não-sei-quê, que surge não sei onde e acaba não sei como!
Gostar
Gostar é achar uma coisa agradável, aprazível. É sentir prazer e dar-se bem com outro.
“Se você gosta de morango, só pensa em comê-lo. Porém, se amas morango, deseja apenas guardá-lo no lado esquerdo do peito”. Gostar é um quase amor. É um amor doentio e imperfeito.
Algumas características de quem gosta
i. Possui ciúme exagerado para com seu parceiro e até por seus objectos preferidos: ciúme é sinónimo de desconfiança e propriedade privada, um sentimento de baixo escalão espiritual.
ii. Controla as acções do parceiro e se puder até os pensamentos: controla porque desconfia. O amor é confiança e é um sentimento que sabe esperar pacientemente a sua hora.
iii. Exige amor, porém não tem para transmitir: o amor não se exige, se aguarda. Temos aí o "pedinte"sentimental, que está vazio de bons sentimentos e deseja encher-se com o amor dos outros.
Quem gosta, um dia pode vir a querer o mal do parceiro: um dos piores predicados escondidos no fundo do gostar é a vingança, que é comandada pelo grande chefe do mal: o ódio, sentimento inverso do amor. O amor não maltrata porque não há tempo nem espaço para o ódio.
Então caro leitor (a), como pode ver, gostar é sinónimo de insegurança, imaturidade, ciúme, desejo de propriedade, vibração negativa.
Paixão
Paixão é um sentimento profundo, afectivo e violento. É quase um amor ardente. Este sentimento é a admiração instantânea firmada em bases falsas, ora corporal, ora pelo “status” socio-económico que pessoa avistada possui. Este sentimento é muito confundido com o falado “amor à primeira vista”.
A paixão nos invade como uma irresistível e intensa atracção, muitas vezes pela sensualidade. Como este sentimento não tem consórcio com a verdade, cai e míngua com a mesma velocidade e intensidade com que apareceu. A paixão não resiste ao tempo, pois esse sentimento tem um alicerce frágil: corpos, títulos e riquezas.
Algumas características de quem sente paixão
i. Não sente amor, pois paixão não se sente, vive-se.
ii. Cegueira: a paixão cega, o amor torna lúcido.
iii. Sentimento de propriedade.
Em jeito de conclusão, a paixão traduz-se num desejo, no fogo, em algo poderoso e grandioso. Pode-se confundir com o amor, ou até mesmo gostar, mas a paixão é efémera e nunca vira ódio, a paixão pode renascer sempre que encontra o apaixonado, mas nem sempre. As paixões que ficam frias, nunca voltam a esquentar, as que são interrompidas por algo (espaço ou distância), essas sim, talvez possam a vir ter uma chance.
Então, de que falava Camões, Amor, Gostar ou Paixão? E você, gosta, ama ou sente paixão?
Por Lopes Rita
Fonte:http://kumbukilah.blogspot.com/2010/02/diferenca-entre-amor-gostar-e-paixao.html



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