Al Gore, Uma Verdade Inconveniente
Nesta esclarecedora descrição de Al Gore e a sua jornada de apresentação do seu "show de aquecimento global", ele também prova a si próprio que é uma das pessoas mais mal entendidas da vida pública da América moderna.
Problema do aquecimento é um desafio global
Com compreensão, inteligência e esperança, "Uma Verdade Inconveniente" traz-nos os argumentos persuasivos de Al Gore, que nos explicam que já não podemos olhar para o problema do aquecimento global como uma questão política, mas sim como o maior desafio global que teremos de enfrentar.
Protagonizado por Al Gore, o filme enreda uma séria advertência para a humanidade, sobre nossas responsabilidades com as mudanças climáticas. É um documentário ambientalista e político, é claro. As imagens, chocantes, mostram as atuais alterações que o nosso Planeta está experimentando e elas são, também, a evidência da irresponsabilidade dos políticos que se negam a reconhecer a urgência de tocar no assunto e o pouco tempo que resta para evitar a catástrofe total.
Em 2008, Al Gore fará 60 anos, 40 deles dedicados à ecologia. Depois de ter perdido a eleição presidencial do ano 2000 retirou-se para sua fazenda no Estado do Tennessee para repensar a vida. Foi ali, olhando o rio que corre ao longo de sua fazenda, que decidiu assumir definitivamente a sua condição de ambientalista.
Buraco da camada de ozônio
Da mesma forma que Sidarta, Al Gore iniciou a longa viagem para o conhecimento, principalmente em auditórios universitários, como anos antes já o tinha feito no Congresso dos EUA, quando era senador na década de 70, convencendo seus pares sobre o perigo do aumento do buraco da Camada de Ozônio, que culminou, felizmente, na assinatura do Protocolo de Montreal. Naquela ocasião o inimigo principal era Bush-pai, que o apelidara de "Homem-Ozônio". Por causa da veemência das suas palavras no Congresso, os republicanos costumavam dizer que Gore injetava lítio nas veias para ficar tão aceso.
Al Gore deixou de lado a sua frustração de ter sido "o ex-próximo presidente dos EUA" e partiu para a batalha contra as mudanças climáticas. Foi assim, com toda essa bagagem, que decidiu fazer palestras ao longo dos EUA conscientizando a população, principalmente universitária, sobre este grave problema planetário.
Política oficial norte-americana se nega a ratificar o Protocolo de Kyoto
Um fator decisivo foi a devastação de Nova Orleans pelo furacão Katrina, que além do impacto climático, revelou uma nação paralela vivendo com um estilo de vida até então desconhecido pelos estadunidenses. A miséria social revelou-se a maior tragédia provocada por uma política oficial que se nega a admitir a importância do Protocolo de Kyoto.
O filme dispõe da melhor tecnologia da Apple, combinando humor, desenhos animados e tabelas com comprovados dados científicos, como numa apresentação multimídia mediante a qual o protagonista explica à platéia as graves conseqüências que o aquecimento global está causando no nosso Planeta. Gore fala de sua vida simultaneamente para Guggenheim e o público, revelando as surpreendentes e emocionantes etapas da sua vida pessoal.
Possibilidade de autodestruição do Planeta
"Uma Verdade Inconveniente" é o primeiro depoimento franco e aberto de um dos protagonistas da política mundial das duas últimas décadas a reconhecer a possibilidade da autodestruição do Planeta. Mesmo que o caminho tivesse sido aberto por Mikhail Gorbatchov, que também está dedicando a sua vida ao meio ambiente, principalmente às questões relativas à geopolítica dos recursos hídricos na Cruz Verde Internacional, foi o ativismo de Al Gore que abriu o caminho para que a luta ambiental se instalasse dentro do próprio Congresso dos EUA.
No filme e nas suas palestras, Al Gore destrói com dados concretos os três grandes mitos existentes sobre o aquecimento global: (1) Sobre as dúvidas quanto à realidade do efeito estufa, ele confirma que milhares de estudos científicos provam que o aquecimento é real e que constitui uma séria ameaça para a vida no Planeta; (2) Sobre se as políticas ambientais afetam a economia dos países, ele demonstra com modelos econômicos de autorizadas personalidades do mundo que as políticas públicas baseadas num planejamento ambiental estimulam as economias dos países; e (3) Que o aquecimento global não é somente um ciclo natural da Terra, mas o resultado das atividades humanas no campo industrial.
Desidratação da Terra
As informações que fornece são exaustivas e definitivas. Um dado concreto é que quase todas as atividades industriais dependem do desmatamento e da desidratação da Terra. Além do corte das árvores para produzir madeira industrializada e carvão vegetal, a construção de hidroelétricas para gerar energia elétrica com as suas indispensáveis barragens é responsável pela inundação de enormes áreas emissoras de gases de efeito estufa, reduzindo a camada atmosférica e aumentando o nível térmico mundial. Algumas das conseqüências do desmatamento são a desertificação, as secas, as inundações e o incremento do número de furacões, tufões e outros tipos de tempestades de grande dimensão. O aquecimento atmosférico que derrete as calotas polares leva à dessalinização das águas oceânicas e a mudanças radicais nos ecossistemas e na capacidade imunológica de todos os seres vivos.
Em virtude deste catastrófico cenário, Al Gore insiste em que "a solução para a crise climática global exige uma ação rápida, sábia e grande de nossa parte". Na mensagem aos empresários, ele lembra que "se destruirmos o Planeta não haverá economia que sobreviva". E ataca frontalmente a causa principal: a cultura dos países industrializados concentrada no consumo, na ganância e na expansão dos negócios em níveis insustentáveis.
Crítica sobre o filme
Um filme como Uma Verdade Inconveniente mostra a possibilidade da consistência de um discurso ambientalista global. Traz dados e conclusões - muitas delas quase idênticas às de Lovelock - como no efetivo índice de aumento da temperatura do planeta até o final do século, de 6 graus em média, ou os efeitos do rápido incremento da densidade populacional (a população da Terra cresceu de 2 bilhões para 6 bilhões no espaço de uma geração). A essência do que é dito ali, repicada pelo espaço no qual a mídia constrói a consciência das pessoas, seria o bastante para tornar esse mundo mais habitável.
Uma Verdade Inconveniente é a documentação da itinerância internacional de uma palestra sobre o tema, conduzida com grande habilidade por Al Gore, o democrata que por pouco não ganhou as eleições para presidente dos EUA. Ele foi derrotado por Bush num resultado que envolveu várias recontagens de votos na Florida e até hoje é cercado de dúvidas.
Dados sobre os perigos do aquecimento global
Gore faz essa palestra há seis anos. Levanta questões essenciais sobre a produção de combustíveis fósseis e o rápido desaparecimento de geleiras ou a ocorrência de catástrofes climáticas. A extensa pesquisa que mostra lança sobre sua platéia uma extraordinária coleção de dados sobre os perigos do aquecimento global e o que poderia ser feito para reduzir o seu impacto.
Se o formato de sua apresentação é admirável, o mesmo não se pode dizer do formato do filme que a documenta. A relevância da palestra não impede que a qualquer momento o documentário possa ser tomado como um institucional sobre o ambientalista - e ainda assim o político - onde não faltam considerações dramáticas sobre assuntos como o acidente que vitimou seu filho ou a doença que matou sua mulher, convenientemente embalados por referências sonoras que cairiam como uma luva na novela das oito.
Essa embalagem não colabora para dar relevo à densidade do que o palestrante está mostrando. Pelo contrário, abre os holofotes sobre a credibilidade das intenções que acompanham o discurso de qualquer político, muito especialmente um quase presidente dos Estados Unidos. Ali estão os indefectíveis primeiro planos, o preto & branco e o slow motion que acompanham todos os filmetes de propaganda política produzidos nos EUA e no mundo.
Iminência da existência da raça humana
O calor dos argumentos de Al Gore corre o perigo de se derreter nesse formato, como as geleiras que se esfacelam no Ártico ou na Groenlândia. Mas a pertinência do que está sendo dito não se dissolve. Uma Verdade Inconveniente faz timidamente pela sobrevivência do planeta o que a mídia poderia fazer numa escala gigantesca, de que nenhum filme é capaz. Desperta a consciência para a iminência da extinção da raça humana, que até bem recentemente os cientistas só esperavam para os próximos milhares de anos. Mostra que a qualidade de nossa vida no planeta vai piorar na semana que vem, e no próximo ano, e todos os dias. Essa não é uma invenção do protagonista - é um consenso científico.
A palestra de Al Gore faz de cada um de nós um personagem de O Senhor dos Anéis. Quem conseguir se abstrair do natural voto de desconfiança que deve ser dado a qualquer político, dificilmente vai dormir sem se perguntar o que pode fazer para salvar o planeta.
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Paulo França (*) é economista pela Universidade de São Paulo, com Cursos em Ciências Políticas e Administração de Empresas. É articulista econômico em Jornais, Revistas e TV, e conferencista em vários estados ministrando cursos de captação de recursos com sustentabilidade ambiental, para setores financeiro, em mineração, bens de capital, celulose, tecnologia, hotelaria, automotivo, entre outros. Consultor em investimento e financiamento.



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